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Não façam de meu nome uma religião



“Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão, porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão”


[Êxodo 20:7]


Uma sociedade estava se formando em volta de um deserto, antigos escravos estavam agora desfrutando da liberdade como nunca a viram, no caminho eles desacostumavam das antigas práticas de manipulação de seus senhores, uma sociedade onde a política era dirigida pela mesma pessoa que se autoproclamava deus.

É nesse ambiente que um legislador surge, acostumado a ser um representante daquele antigo sistema, ele sai em direção a uma caminhada espiritual em lugares inóspitos, procurando fugir daquele “deus” que o mataria. Moisés era o seu nome, ele encontrou no meio do deserto o Deus da graça e passou a conhecer a graça de Deus, foi nesse momento que ele se objetivou a levar todo aquele povo ao período de salvação que ele mesmo desfrutou. Ele tinha se livrado dos deuses do Egito, o povo não.

Passada a caminhada logo surge uma forma de governo completamente diferente, aquele povo teria passado por diversas situações e por não terem se encontrado presencialmente com Deus não o reconheciam, apenas o imaginavam em figuras místicas. Do alto de trovões ou fumaça, instituiriam cultos antigos ao novo “deus” e não entenderam o seu propósito salvador.

O legislador surge com diversas normas que deveriam aponta para o caráter de Deus, elas não eram precisamente mandamentos, tratava-se “palavras”, de um discurso sobre Deus, uma pregação do evangelho, transbordante de aplicativos em Jesus. A lei era uma maravilha maldita, pois se a um tempo falava sobre Jesus, a outro condenava todos os que não o conheciam, era lastimável.

Mas há algo de especial nesse texto em específico. A expressão que é diversamente defendida com evitar um pronunciamento do nome de Deus, não pode ser vista desta forma, não são as repetições que infligem a regra também, muito menos a escrita. O mandamento é quebrado quando fazemos uma religião em torno de Deus, eu proporia uma paráfrase: “Não façam de meu nome uma religião”. Jesus, e seu caráter santo, não permitiriam tamanha atrocidade. Ele não nos chamou para sermos cristãos, ou judeus, seu chamado é para a humanidade.

A religião é que usurpa o nome de Deus, a política, sua filha mais nova é cria do relacionamento promíscuo entre fé e prisão da alma, tal qual o antigo Faraó. Temos um povo cansado, triste e oprimido, análogo aos judeus do Egito. Temos destruído o nome de Jesus, o nome de Deus, quando não publicamos uma fé genuína, que fale dele em nossas vidas, quando inventamos que estamos falando em seu nome, e nossa hermenêutica não é pautada no amor.

Sobre o reino e nossas máscaras.

Por Rafael Sá
 
 
Um aviador ejeta-se de seu avião sobre um deserto no meio de um lugar desconhecido, onde não havia lugar para descansar ou nem ao menos água para beber. Moribundo e entregue à sua própria sorte, o viajante seguia deitado esperando a chegada da morte. De repente se aproximou dali um grupo de peregrinos que andavam desesperados pelas notícias que a pouco tinham recebido.

O rei da cidade mais próxima foi sequestrado por um grupo de assassinos e não havia esperança de que ele estivesse vivo. Ao se chegarem perto do homem estendido sobre o sol escaldante, perceberam que ainda estava vivo e lhe cuidaram das feridas, antes, porém perceberam que o homem que estava ali jogado tinha tamanha semelhança com o seu rei que a surpresa de encontrá-lo os fez pular de alegria. Achamos o rei! Gritavam uns aos outros.

Depois de terem levado aquele homem ainda desacordado até a cidade onde deveria reinar, este deu um salto, e percebeu-se vestido de púrpura e com anéis reais nos dedos, estava coroado e com todos o servindo. Tal lhe foi a surpresa que apenas aguardou calado até entender o que havia acontecido. Ele tinha sido confundido com o verdadeiro rei. A confusão o fez meditar sobre o que deveria fazer. Aproveitar a boa sorte, ou assumir quem realmente era?

O dilema o seguiu de perto noite adentro. Assumir outra identidade era negar o seu ser, quem realmente era, seria então fretar com a maldade. Teria um povo que o reconheceria como outro totalmente diferente do que era. Se o deserto não o matara, a usurpação o faria.

Não assumir aquela posição significaria voltar a ser tudo o que era anteriormente. A verdade é que a vida nunca lhe favoreceu. Ele mesmo se considerava um azarado. Assumir-se era reconhecer seu fracasso, sua vida medíocre e abandonar uma grande oportunidade de desfrutar do poder pelo resto da vida.

Conforme passavam as horas, o dia clareava e o aviador não tinha uma resposta. O seu dilema entre a ética, o prazer e o poder o consumia...

Essa história é baseada em um dos textos de Pascal, embora com uma proposta de investigação diferente. Ousei exatamente repensar o sentido de ser o que somos, ou a negação disso, no paradigma da existência.

O primeiro dilema sobre o qual quero tratar é o da usurpação. A estranha ideia de tomar o lugar de outro é provavelmente o mais grave pecado que cometemos. Nietzsche faz referência ao dizer:

“todo espírito profundo precisa de uma máscara”.

A verdade é que a humanidade ao romper com a sua origem criou, a partir de si mesmo, uma nova imagem de homem totalmente diferente daquela original. Essa imagem é bem evidenciada na inveja. A inveja é um sentimento que gera no seu possuidor uma sensação se usurpação. O sentimento de querer ter o que é do outro. O mais interessante disso é que ninguém quer ser alguém inferior. Somos todos desejosos de parecer com um ser mais elevado. Levando esse encadeamento ao extremo, sabemos que é a falta do homem superior, revelado, que nos aflige.

O homem dentro da teologia é feito à imagem de Deus, mistério esse que só foi revelado com o nascimento do molde humano, a saber, o Cristo. Cristo é o motivo da nossa inveja. É a sua perfeição e a perseguição ao homem perfeito, que nos faz criar a sensação de que deveríamos tomar o seu lugar. Ao cobiçarmos o que é do outro, reafirmamos que não nos bastamos. É a nossa revolta contra o rei que nos causa isso.

O ser do Cristo é nosso ponto de busca, é nosso anseio, pelo simples fato de que Jesus e sua ética estão absolutamente ligados ao Deus criador.

“Meu alimento é fazer a vontade de Deus e CUMPRIR SUAS OBRAS”

Não existe dualidade na visão do Cristo, seu entendimento era o do pai e o entendimento do pai era o seu,

“eu e o Pai somos um”

Então a vida do nosso aviador e seu o dilema se confundem com a nossa. O padrão que se coloca à nossa frente é imensuravelmente majestoso, para que possamos assumi-lo, e se o fizéssemos seríamos infelizes. Pelo peso da realeza, e sua ética exigida, não poderíamos reinar se nos faltasse caráter. Assumir a vida de um ser elevado e perfeito em si mesmo nos geraria um trauma existencial profundo. A verdade é que exatamente desta forma, criamos isso. Optamos por assumir o lugar do rei, desfiguramos as suas atitudes e criamos o livre arbítrio, que é uma forma de dizer que o bem e o mal emanam de nós mesmos. Reinamos no lugar do filho de Deus, traímos a humanidade perfeita.

Nós fingimos porque não temos um rosto certo, este até hoje se encontra desfigurado. A ilusão de que temos dois seres vivendo em nós brota exatamente disso. O Ser criado, profundamente envolvido com a vida e seu projeto grande e imponente, reflete a ideia de que fomos criados pouco menores que os anjos. O ser externo é uma máscara, um engodo. É nele que fabricamos as mentiras, apequenamos o verdadeiro eu, e mutilamos o propósito da criação.

O segundo conflito do aviador diz respeito ao prazer ou poder, porque a sua vida não tinha nenhum sentido até ser posto na cadeira real. Em qualquer aspecto, ele sentia que ali era uma mudança de sorte, o destino tinha lhe proporcionado uma experiência totalmente nova, desfocada daquela que possuía até então, a do azar.

Esse conflito se põe exatamente na mesma égide do dilema da humanidade. Duas escolas famosas de psicologia lidam com a mesma moeda, apenas alterando o seu lado. A vontade de poder é no final das contas a vontade de prazer e vice-versa. Adler e Freud perseguiram os reais problemas humanos, no entanto se esqueceram de que o ser humano só busca esse prazer e esse poder como consolo pela sua vida de frustração. Poder e prazer são sintomas, não o objetivo. E só buscamos os tais pela nossa sensação de que a cadeira real nos pertence.

A semelhança do viajante com o rei é notória e essencial para desvendarmos essa outra face do dilema humano. Este conflito é gerado exatamente porque, como humanos, formos feitos parecidos com Jesus, com a possibilidade inclusive de agir eticamente em direção ao sagrado. Essa aspiração utópica, também se explica pelo trauma da origem o homem separado de seu ideal humano. Porque na vontade de reinar, existe um traço antigo de nosso caráter, que fazia com que toda criação se submetesse ao nosso domínio. A criação tinha um profundo respeito pelo Cristo em nós, pela aparência que tínhamos com o criador.

Éramos seus representantes. Criados para sermos embaixadores do céu na terra. O homem se sentia rei porque no final das contas, era. O espírito do viajante tremia só de pensar na possibilidade de se reestruturar ao momento antigo. Sua face mentirosa desejava usurpação, mas seu espírito a redenção. Autorização!

Nossa consciência sempre nos levará para a ideia de que fomos criados para reinar e, no final das contas, o reino nos pertence também. A similaridade do homem com o rei, não é pura coincidência, é o parentesco reafirmado que lhe indica. A verdade liberta o homem tanto da sua máscara, como lhe dá condições de aceitar o verdadeiro rei. Agora, o ser interior pode ser livre. Tudo que ele quer é:

“Meu alimento é fazer A VONTADE DE DEUS e cumprir Suas obras”

Quando estamos ligados à fonte da nossa vida, nos sentimos alimentados em nosso prazer e temos o poder real, não ilusório e dualista. Em Cristo, que é a imagem, se refaz o novo homem, livre da angustia de reinar no lugar de outro e de desejar o prazer em meio à vida sofrida. Em Cristo somos novas criaturas da realeza do Senhor, e coerdeiros das suas promessas.

Que nossa angustia nos leve para a origem do nosso problema! Que caiam nossas máscaras, para que Cristo reine! Que apareça nosso ser real (no sentido de rei) para que dominemos o mundo e submetamos todo ele à vontade de Deus!

Sobre o tempo, a fé e a eternidade!




A grande questão humana, a existência, passa pelo paradigma lógico do tempo. É a memória que gera a história, um estranho fenômeno que nos faz crer na existência, sem ela não teríamos esperança e não distinguiríamos o nosso lugar no mundo. Por isso não acreditamos que fomos feitos segundo atrás. A memória nos aproxima das pessoas, e ao mesmo tempo nos distingue destas. Quando lembramos, nos tornamos totalmente outro, em relação ao fato histórico, visto por tantos outros, ou seja, somos individualizados frente ao mesmo evento  e coletivizados igualmente nos tornando solidários em relação as vivências. O que quero então dizer com isto, é que a memória por conseguinte a história, nos compacta dentro de uma esfera que podemos chamar existência. Que a um tempo é intimamente pessoal, e no mesmo é coletiva.


Esse paradoxo nos leva a perceber duas formas de aplicação a esse efeito. Somos geralmente otimistas em relação à história universal. Isto se demonstrada na forma como tratamos os temas ligados à solidariedade coletiva. Aos vermos vítimas de tragédias, temos uma força que acredita completamente na salvação pela solidariedade. Nossa perspectiva é heroica quando falamos do passado. Perdoamos todas as nossas atrocidade, em nome dessa grande história.. Entretanto, quando diz respeito as histórias de vida na subjetividade, onde se encontra o desafio existencial, somos deveras trágicos. Contamos nossas histórias como verdadeiras sagas, que brotam da culpa que por sua vez vêm de um medo. Escolhemos os ídolos porque não temos coragem de sermos heróis.


Quem então firmou as colunas do tempo? Quem poderia propor que a volta da terra em torno do sol poderia ser um padrão de medição para os nossos próprios ciclos. Ou será que ciclicidade da história é um engodo que nos faz abandonar a dura realidade que avançamos linearmente. A ilusão nos leva a ano após anos fazer promessas e planos que se repetem infinitamente, como se o próximo ano pudesse nos salvar dos malfeitos do anterior. Inventamos o ciclo da história porque no fundo queríamos nos perdoar de tudo que não fizemos e daquilo que fizemos mal. A história cíclica só interessa aos culpados, aos imbecis e aos falsos heróis, os pescadores de ilusões.



A história é devidamente linear. Nela não são permitidas naturalmente saltos ao passado, não temos o direito de refazer nada. Devemos então conviver com a tristeza, ou seria agonia, de não pudermos dar um jeito naquilo de errado que praticamos. A história não se repete, para que a nossa responsabilidade não fosse adiada para depois.


Temos dois relatos que nos ilustram como se perceber nesse oceano da história, a saber, Abraão e Ulisses. Ambos se aventuraram em uma viajem perigosa, saíram de suas casas e enfrentaram dificuldade inimagináveis. O segundo rendeu-se a história cíclica, sua vontade era retornar ao ponto onde parou historicamente, e perseguir seu ideal de guerreiro. Ulisses viveu o “eterno retorno”. Já o primeiro ao sair de um lugar para outro deu um impulso à sua fé. Perdeu sua identidade étnica, rejeitou o seu destino proposto e sem remorsos partiu em direção à vida, sem saber para onde iria e nem aonde chegaria.


Aqueles que são movidos pela culpa, remorso, ou mesmo pelo seu trabalho se prendem à grande roda da existência, se tornaram cada vez mais enjaulados dentro de si, como gado serão levados e cumprirão apenas o destino natural. As plantas, animais e os elementos, fazem isso. Nada de extraordinário se apresenta sobre eles. A dinâmica culpa/medo os prenderá nas trevas da mesmice humana.



Abraão, o inconformado hebreu, não apenas cumpriu um ideal cíclico, onde por várias vezes se debruçou sobre seu passado tentando se ver perdoado. No entanto ele salta como ninguém jamais saltou. Abandona as convicções de tempo e pula sobre elas, ele nunca mais veria a Caldeia, como Moisés e os hebreus não veriam o Egito. A fé é um salto para dentro da história, é a limpeza da memória, da culpa da insensatez, é o aceitar do desafio da existência. 



Fé é a coragem de ser no tempo, enfrentando, e se abrindo para as possibilidades, sem medo ou culpa. O tempo cíclico ou anti-histórico de fato existe, mas não na ordem humana, pela nossa intenção esse tempo só nos causa dor. O tempo cíclico é a eternidade, o lugar onde a divindade habita e todos os ideais humanos são perfeitos.


A fé resolve a equação e nos ensina a vencer o medo. A fé é a conexão com aquele tempo fora da história, que produz a história , como diz Hegel:

“é a eternidade que faz com que o tempo desperte para a história”


É a eternidade que abre o tempo, é blasfêmia ou irreverência humana a tentativa de eternizar o seu tempo, se conformar, se cauterizar. Deixar para a amanhã a chamada para hoje, nada além do suspiro de uma alma cansada que perdeu a esperança e por consequência não tem nenhuma fé. Abraão sabia exatamente que sua vida estava aberta, como diz Sartre, para o nada. Seu salto para a verdadeira história provocou sua salvação!


Kierkegaard nos diz :

“O tempo intercepta constantemente a eternidade, em que a eternidade penetra constantemente no tempo”

A fé é a forma de ter certeza de um tempo sem culpa ou dor. A fé é a constante da qual deriva a ordem correta da vida. Fé é a forma que o sagrado elegeu para vislumbramos o seu reino, 



“Nós não entenderíamos a eternidade se não tivéssemos contato com ela”
(Plotino)


Temos em nós o código para a eternidade!



Signatum est super nos lumen vultus, tui, Domine!
 [A luz do Senhor está assinalada em nossas frontes (Sl 4.7)]

Jó, o crucificado



Jó inaugurou o debate sobre o sofrimento, e o fez a partir de sua própria história. As questões vivenciadas por esse personagem são resultados de debates até hoje, e a causa do sofrimento ainda parece ser particularmente associada à ideia da existência de Deus. Diversas literaturas tanto antigas como modernas apontam para a incompatibilidade de um Deus bom permitir o sofrimento.

A questão é que Jó inicia o pensamento pelo caminho oposto. Quem pergunta sobre o sofrimento é Deus, e o faz pelo caminho de atestar a verdadeira humanidade. Deus perguntaria: é o possível crer no homem se ele passar pelo sofrimento? A dúvida metódica e retórica de Deus imporiam ao homem a resposta de sua humanidade. Em outras palavras, ser humano é permanecer sofredor e, negar essa instância negaria portanto a própria humanidade.

O texto segue a lógica de Deus lendo a realidade do homem e percebendo com prazer a atitude de Jó em meio às perdas materiais e afetivas e todo o sofrimento que lhe causou, respondendo com uma humanidade profunda:

"O Senhor deu, e o Senhor o tirou"

A teologia de Jó estava portanto alinhada com a teologia divina. O sofrimento tem de ser respondido no viés da existência. Ter não é ser, e muito menos tem haver com a vontade humana, o ter é uma virtude concebida único e exclusivamente por Deus. Enquanto a modernidade declara aos seu ouvintes, “eu tenho, eu existo”. Jó diz: não tenho e continuo existindo!

O primeiro conflito estava resolvido, o homem pode dar conta de seu sofrimento e pode conviver com ele. Jó tinha respondido à retórica divina, tinha sido justificado pelo seu desapego! Até que outra pergunta de Deus começa a inflamar de novo. Agora o motivo era sensorial.



O sofrimento afeta os órgãos do sentido, aqueles responsáveis por colher as informações do mundo, que afetam a percepção, e por isso afetam a vontade. Novamente o humano Jó responde, dessa vez contraria o penso, logo existo. Aquilo que era aferido pelos sentidos e processados pelos pensamentos não poderiam dar contar do que é o sofrimento. A vida não é uma coleção de sensações reveladas, há uma dimensão humana que está acima de tudo isso. No espírito o ser humano dar conta de tudo que vai além do pensamento.

De novo vemos o alinhamento entre teologias. A dúvida didática de Deus é resolvida, a humanidade pode entender o sofrimento, pode tocá-lo e pode dar um sentido para ele. Pensar não é existir. Até mesmo porque o pensamento só nos diz do bem e do mal. A isto Jó diz:


“Receberemos de Deus o bem, e não o mal?”

O dualismo é vencido, a concepção de bem e mal devolvidas a Deus, e Jó permanece provando-se humano demasiadamente humano.

A história tem seu revés ao transferir o debate do conselho divino para o humano. Agora alguns amigos de Jó, pretendem manter a a resposta do sofrimento no patamar divino, e tentam o patriarca a se entregar à lógica desumana. Ao colocarem a responsabilidade (ação frente a) pelo mal em Deus e não à sua causa, caem no abismo destinado aos ignorantes do sofrimento humano.

Cada amigo de Jó parece conter em suas teológicas traços do que mais tarde seria bastante difundido no meio teológico moderno. Ideias como: Prosperidade versus sofrimento, Deus soberano versus sofrimento e pecado x sofrimento, formam a coxa de retalhos da ortodoxia e heterodoxia moderna.

Apenas um de seus amigos lhe apresenta e devolve ao debate a importância do lugar do sofrimento. Um de seus amigos diz que Deus não é responsável ( ação frente a) Sua responsabilidade está em prover a existência. Com isso entendemos que nossa compreensão da responsabilidade humana frente ao sofrimento nos possibilitará enxergar a responsabilidade divina frente a existência. 


A presença do redentor, figura emblemática de salvação. Nos leva a considerar que a encarnação de Deus reservaria resposta final ao sofrimento humano. Agora tudo faz sentido. Jó ao sentir as duras penas do sofrimento estava trazendo Cristo em suas feridas. Sofrer é perceber o Cristo crucificado em nós. Jó foi mais um crucificado, sentiu em suas pele os estigmas do abandono familiar, do circulo de amizades e de Deus. Foi o homem que primeiro imortalizou o sentido de todos os crucificados.

A crucificação da carne nos ensina a trilhar a resposta de Deus. A existência criada por Deus anseia por uma resposta urgente a respeito da vida humana. Jó entendeu o seu sofrimento em uma dimensão quase divina. Ele entendeu que ao sofrer poderia crer na resposta do sofrimento. A sua vida tinha sentido, logo seu sofrimento também.

Não tenho como não terminar esse texto sem mencionar a experiência de Paulo que é minha também.


“Já estou crucificado com Cristo; e vivo não mais eu, mas Cristo vive em mim”

Um sentido para o nascimento


Provavelmente todos passamos por uma história envolvente sobre as nossas origens. Há algo lúdico nos nascimentos. Por mais verdadeiros e autônomos que sejam, nos parecem soar como uma linda poesia. Ninguém pensa em seu próprio nascimento como uma experiência de dor agonizante que conduziu alguém a quase um processo de morte. Nem ao menos que o seu nascimento foi uma sucessão de eventos técnicos tal qual uma linha de montagem que lhe possibilitou estar ali.

É bem possível que nos lembremos desse momento com o peito cheio de paixão, com a respiração ofegante de quem está pronto a nascer de novo a qualquer hora. Isto acontece porque o fenômeno do parto é incorporado a uma série de outros que serão posteriormente chamados de vida.

Verdade também que uma das história mais antigas que contam a nossa própria história, traz o mesmo elemento lúdico. Uma poesia nos conta que no principio, nós seres humanos fomos resultado de um parto profundo realizado pelo universo. Seu autor humano, tinha acabado de escrever um salmo de exaltação, outra poesia, e nesta tinha pedido estranhamente para que fosse ensinado a contar os seu dias de uma forma tal que o seu coração se tornasse sábio, a exemplo de quem idealizou o seu parto.

O resultado não foi diferente, a poética história da humanidade nasceria da verdade simples de alguém que se preocupou com a sua existência. Elaboração criativa que demonstrava que em sete dias pode conter todo o necessário para a vida. Viver uma semana, dia por dia sem a preocupação do próximo é sem dúvida a maior virtude que um homem pode alcançar.

Este salmista pouco conhecido, um patriarca, Moisés.  Tinha aprendido a contar os seus dias e os dias de toda a humanidade. Tinha aprendido a perceber o tempo passando. Aprendeu que os dias visavam apenas um fim, sua própria vida.

Não existe um só motivo que justifique a vida sem dias. Há de fato alguns que passarão a vida toda e não terão vivido nem apenas uma semana. Não terão tempo para ver o essencial. Não verão a luz surgindo nas auroras, não há de se ver o sol surgindo, a lua. Não terá tempo nem ao menos para perceber as águas que se distanciam da terra de forma infinita, nem muito menos que nenhum desses espaços permanece sem vida, sem animais para contar a história acontecendo.

Provavelmente alguns ficarão sem a possibilidade de verem a si mesmos. Não verão a estrutura frágil em que foram moldados, nem a estrutura forte que os deu vida. Não viverão, eles não merecem viver, ou na verdade não querem viver.

A grande verdade é que no texto sobre o começo de tudo, um mestre singular nos ensinou que o maior deveria servir o menor. Independente da ordem em que se exponham os detalhes da origem, sabemos que tudo foi criado do mais forte para o mais fraco. O homem foi o ser criado por último para ser servido por todos. Encontramos uma criatura tão frágil e débil que sem o empenho de todos os outros fortes, estaria fadada ao fracasso. A ordem era clara o maior sirva o menor. E assim tudo era muito bom.

Contundo, ao homem foi lhe dado um poder sobrenatural, ele portaria a personalidade do maior, que criou tudo. Em outras palavras, em seu corpo devia ser servido e, em seu espírito deveria servir a todos. A ordem estava perfeita, com o espírito livre ele tinha domínio sobre todos e só por esta razão não poderia se considerar superior. A sua única regra era a mesma antiga, sirva ao menor!

Dessa forma todos os outros seres passariam a carecer de espírito. Tudo que está em volta do ser humano clama por uma espiritualização por um sentido. Somos responsáveis por dar alma, cor, textura, transcendência aos seres que nos mantêm o corpo. O maior servindo ao menor.

Como humanos somos criados com espíritos livres, e liberdade implica em serviço. O que alguém já chamou de responsabilidade. O mundo espera ansiosamente por humanos livres que aprenderam a contar os seus dias observando a criação, que voltaram a ver os lírios ou os pássaros. O mundo precisa voltar a lembrar-se de seu parto, voltar a sonhar com ele e viver a partir dele.


A marca e suas bestas



Confesso que não gostaria de tratar desse tema. Na verdade gosto de mexer com a metafísica exatamente porque ela me mantêm longe de coisas não essenciais, como o pragmatismo moderno. Minha preocupação com Deus não veem de um desejo de salvação desenfreado, muito menos de uma constatação de um lugar pós morte para descansar os pés. Nada disso, minha preocupação a priori sempre será com a forma humana do conhecimento, aquilo que não tenho a menor vergonha, de designa “Deus”, no seu melhor sentido significa entender como tudo foi feito, a teoria do conhecimento universal que não se preocupa com aparências.

Acontece que nem só de essencial vive o homem, um ser que para fugir da sua própria ignorância inventa o lúdico, simboliza. Foi no exato momento em que alguém se viu diferente dos outros animais, que ele se apaixonou pela ideia de que sua diferença era de cunho simbólico. A razão. Esse elemento que não aparece no sensível foi a desculpa esperada para nos tornamos o que somos. E nos tornamos animais simbolizadores.

Nada contra o simbolo, o que seria da humanidade sem ele, seu único problema reside quando este usurpa o lugar daquilo que ele mesmo pretende simbolizar. Exemplo: Algum matemático passa a acreditar que o simbolo que ele desenha na lousa de giz é um número, quando na verdade o que têm ali é um rabisco. O número está longe de ser aquilo, sua existência é metafisica e não se rende a existir fora de lá. Outro exemplo é o teólogo que acha que seu livro é sagrado, enquanto que o que é sagrado nem pode ser expresso em sua completude na realidade física, pois não se rende a se tornar texto.
Acontece pior quando um teólogo se junta a um matemático para falar de números e sobre o mal. A confusão generalizada está montada, dois seres que aprenderam a amar os símbolos e esqueceram-se daquilo que eles representam.

Fato notável é que o mal é de fácil percepção, tão fácil que já se chegou a negar a existência de Deus, ou de uma origem racional, pela simplicidade dele ser possível. Uma convergência estranha, é quando esse mal ganha um número. Um teólogo apologista do primeiro século resolveu idealizar um número que possuía a característica de representar o mal humano. Com a controvérsia posta, demorei muito para entender que o simbólico, estava muito além da realidade. O que esse homem fantástico estava apontando era que se os números indicam uma possibilidade metafisica de ler o mundo, logo, o mal teria o seu lugar.

Este teólogo matemático não tinha as nossas aspirações de falar do número, sua preocupação era entender como as coisas que estão além de nós encarnam. Fez isso com a palavra, o logos, apresentando a possibilidade dos conceitos da gramática se tornarem palpáveis, faria isso com a possibilidade de um número apresentar a mesma característica. Que homem brilhante! Fascinante é que os homens absorveriam o mal e os cunhariam como marcas.

Naquela época a economia era dominada pelo governo, moedas estampavam a marca de um rei que essencialmente era mal, seu governo causava destruição e sofrimento para todos, era o oposto do rei que este teólogo tinha conhecido. Esse mal-rei, ostentava ser uma besta destruidora que marcava a todos pela sua assinatura.

Aquele número não era nada, o seu mal sim. Teogonias sempre existiram, inclusive as numéricas. Números ainda indicam a presença do mal no mundo. O sentido do mal se confunde com o sentido da vida, exatamente pelo fato de que a vida é o eterno pedido da inexistência do mal. Aqueles que aceitam o mal como resposta pela vida, estão de fato condenados a serem marcados pelo domínio e sujeição deste mal.

O sábio do primeiro século nos ensinou a olha para a origem do mal ao mesmo tempo que nos ensinou a olhar o mal em nós. Não há chips, códigos de barras, assinaturas presidenciais, ou ferros de marcar cavalos que possam aplica em nós o mal. O mal está fora disso tudo, o mal está presente em nós. Sua única cura é o movimento de aceitação da vida em detrimento da morte. Mesmo que isto custe exatamente a vida.

O nosso grave problema é a marca de Caim. Recomendo que deixemos para trás as idiotices de olharmos para o mal nos outros como medida para fugirmos do nosso próprio. E que o mal humano seja o motivo do nosso terror, e não as suas marcas.


Sobre a felicidade




Felicidade, tema recorrente do mundo moderno, ou pós-moderno, não sou muito chegado a essas nomenclaturas, até mesmo porque a idade que chamam de idade das trevas foi provavelmente a idade mais digna da vida humana, evidente que não defendo a reclusão das literaturas, mas sou completamente contra a espiritualização vazia, sem sentido, empobrecida pela falta de referencial. Então, dessa forma é impossível reconhecer que somos uma geração de pessoas felizes. A idade antiga buscava o entendimento e a vida em família a idade média buscou a realização pelo viés religioso, a nossa era busca a realização pelo subjetivismo, somos realizados pelo que chamamos de sonho de liberdade, ou melhor sonho de felicidade.

Não quero me adentrar na questão epistemológica, embora a considere importantíssima, penso que ela fala do devir, ou seja do que determinada coisa deveria ser. Vou preferir tratar da questão ontológica, reconheço que o campo é minado perguntar pelo ser da felicidade é incrivelmente complicado. A proposto do blog é pensar a mente de forma repensada, pois bem, a relevância do tema em questão é orquestrada pela falta de entendimento do que se quer dizer com felicidade. 

A pergunta inicial é o que é felicidade? Na verdade é pergunta final também, a pergunta pela felicidade se transformou em um desejo pela felicidade.

Nas palavras de Gandhi, “não existe caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho”. Com essa contribuição o líder pacifista transforma a felicidade de um devir para o próprio ser, ele personaliza a felicidade, de uma maneira lúdica transformando-a metaforicamente em um “caminho”. Dessa forma felicidade é o ser no meio, é a ponte do equilibro que liga aquilo que não é ao que é. Caminho é exatamente isso, então porque não somos felizes, se a felicidade é um caminho dado a todo ser humano? Simples, esquecemos o que tem do outro lado do caminho, esquecemos o motivo da jornada, esquecemos da peregrinação.

Então o que teria do outro lado do caminho? O próprio ser, eu definiria humildemente a felicidade como o caminho para o encontro com o “ser”. O estado que se encontra todo homem longe do ser é o estado do vazio, do nada. Está no não ser é o mesmo que dizer que estamos na angústia, ou pior no medo. Sim, pois a primeira gera a pergunta pelo ser, enquanto que a segunda é uma resposta ao ser, que o acaba por defini-lo e transformá-lo no caminho e não chegada.

Então, se a chegada é o encontro com o “ser”, onde fica o “existir”, lembrando que são categorias universais do ser humano. O existir é a categoria que nos lembra do tempo e do espaço, essas contingências, são as inquisidoras da consciência. Se lembramos do existir como o meio, então ele se confunde com a própria felicidade, ou é seu caminho contrário.Prefiro entender que em algum momento da existência ambas eram a mesma coisa, quando o processo da história nos transformou em escravos do tempo isso mudou, sendo que as duas se tornaram opostas. Penso que a felicidade aqui poderia ser pensado como o descanso do existir, quando por determinação da plenitude da história acertamos o caminho do “Ser”, nos tornamos felizes.

Como diria Bultmann “A interrogação acerca de Deus e a interrogação acerca de nós são idênticas”, Ao termos um encontro existencial com o ser de Deus, encontramos a felicidade, isso esclarece porque aqueles que ignoram a pergunta sobre Deus, possam se sentir felizes, na verdade encontraram uma, ou várias de seus atributos, isso pode acontecer amando alguém ou amando uma causa. Deve ser por isso que autores no Novo testamento afirmaram que “Deus é amor”, bom isso é assunto pra outro post, mas retornando a questão introdutória. Felicidade é tanto o meio pra se chegar ao ser como o descanso do não-ser quanto este se encontra com o atributo da divindade.


Termino e concordo com as palavras de Kierkegaard “A porta da felicidade abre só para o exterior; quem a força em sentido contrário acaba por fechá-la ainda mais”.

Eu acredito em Papai Noel

Faltando apenas alguns dias para o dia 25 de dezembro, me coloquei a refleti sobre a data e seu significado. Não quero falar diretamente do legítimo representante da data, Jesus Cristo. Preferencialmente quero falar sobre um homem muito bom, que o defendeu em um período de crise na Igreja. Quero falar sobre o Papai Noel, ou melhor o bispo Nicolau.

Nicolau é um conhecido bispo da história da igreja, é certo que circundam sobre eles diversas crenças mitológicas que não ajudam muito. Gostaria de usar alguns dados concretos para falar sobre ele, mas antes é preciso fazer um resumo histórico da sua época.

Antes do concílio de Niceia, um dos mais relevantes para a história da igreja, os bispos e membros eram perseguidos e encarcerados  com ferocidade e por vezes executados pelas autoridades romanas. Os templos das igrejas eram confiscados e transformados em templos pagãos. Nesse clima surge o imperador Constantino que fundiu a igreja com o estado e soltou os prisioneiros cristãos.

Entre esses prisioneiros estava exatamente Nicolau, preso por recusar-se a negar sua fé em Jesus Cristo, foi chicoteado todos o dias no cativeiro. Logo depois de ser solto, a questão do arianismo, que negava a divindade de Cristo, era latente. E novamente, o Bispo de Mira, decide não negar a sua fé. Além disso participa ativamente no Concilio de Niceia, afirmando agora não só a historicidade de Cristo, como tinha feito antigamente, mas agora o Cristo da fé é mantido, sua divindade preservada na mente da Igreja, mesmo depois de passar por uma de suas maiores perseguições.

Esse Nicolau, que ganhou um novo nome “Noel”, dentro da tradição brasileira, perdeu seu significado. O símbolo do cristão fervoroso que repartia o que tinha com as crianças por entender a encarnação de Deus como um sinal de cuidado educacional e espiritual de todas as pessoas foi ignorado, sendo demonizado pela cultura materialista da modernidade. 

Agora ele já não defende a fé, pois os opositores da fé, o transformaram em um mago, um bruxo, um esquizofrênico, totalmente desnorteado da pura realidade, fadado a viver em um mundo de “magia”. Sinto verdadeira repulsa, ao simples fato de pensar o que aconteceria se o verdadeiro bom velhinho soubesse que o tinham transformado em um “pagão”, e por pagão não quero entender como aquele sistema religioso que não faça parte da religiosidade judaico-cristã, pelo contrário, pagão aqui se entende como um argumento do mal, uma ideologia que corrompe a consciência dos pobres, dos incultos, dos ignorantes. Corrupção que obriga milhares de perdidos em sua consciência coletiva a financiarem o mercado com as suas pequenas posses. 

Quero realmente acreditar em Papai Noel. Uma geração de Nicolaus deveria se erguer de uma igreja que se encontra em ruínas, para defender a fé fora de suas porteiras, para que se lute pela afirmação na fé no Cristo divino, no Cristo histórico. O único símbolo que pode ser adorado sem que se torne um “demônio”.

O maior legado que Nicolau deixou foi colocar Jesus Cristo no centro de sua vida, seu ministério, toda a sua existência. Precisamos sim voltar a acreditar em “Papai Noel”. 

Algumas palavras sobre corrupção


Existe um fenômeno cultural que encerra a questão do aprisionamento da alma. Corrupção. A palavra latina curruptus que quer dizer “quebrado em pedaços”, determina à primeira vista que algo se tornou o que não era, tal como um vaso que tinha forma perfeita, e que ao ser martelado se fez em ruínas.

Um dos assuntos mais comentados no Brasil é a criminosa corrupção politica, filosófica, educativa, entres outros. Ao analisar o problema, em um primeiro momento verificamos que a corrupção é sempre compartilhada, não existe corrupto sem corrompido e não existe corrompido sem um corrupto. Sempre há um sujeito corruptor e um objeto corrompido, uma estrada de mão dupla.

Precisamos parar pra pensar no tal “martelo” que quebrou o vaso, se somos uma sociedade constituída por princípios universalmente éticos que impelem o homem para o que é bom, porque ainda somos tentando à corrupção? O “martelo” poderia ser chamado de vícios e o vaso de mente. Ao atirarmos contra a dimensão mental com práticas não convencionais relacionadas a desvios éticos quebramos a dimensão em pedaços.

Acontece com os políticos que se convenceram que podem simplesmente ludibriar seus eleitores, acontece com a pessoa que adultera a gasolina, acontece com quem fura a fila. Modelos de corrupção aperfeiçoados pela invalidade dos valores e o cultivo dos vícios.

            Um componente vital pra a corrupção mental é o midiatismo moderno, centrado no contrato do vicio, ou seja, daquilo que depois de ingerido produz aprisionamento, seria até possível falar em dependentes de meios comunicativos, ao cultivar péssimos hábitos temos ai uma substituição do que é bom para aquilo que completamente mal.

            A melhor medida pra vencermos a corrupção é pelo convencimento racional de que à medida que me afasto daquilo que é mal e me aproximo do que é virtuoso, assumo um caráter genuinamente humano, Paulo de Tarso nos ensinando a pensar, diz o seguinte:

“Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.”  

Identidade



                            Torna-te o que és. O principio de identidade da lógica diz que todo objeto é igual a si mesmo, isso quer dizer que A nunca pode ser igual B, e nem o contrário. Saindo do conceito para a prática humana isso quer dizer que você nunca conseguira ser outro ser que não seja você.
                            Parece simples o argumento, mas me espanto realmente com a quantidade de pessoas que querem ser outra pessoa. Aprendi nos bancos da faculdade que a pessoa humana aprende por algo muito simples chamada de imagem, e é está que condiciona todos os conceitos que os homens têm.
                            Quando alguém se colocar a querer ser uma nova pessoa, frase que já virou clichê, muito motivada pelos livros de auto ajuda, ela na verdade está ignorando o papel que tem, assumindo assim uma nova identidade, a partir da qual se identificará com o mundo.
                            As pessoas se alienam muito fácil, de seriados como Harry Potter, a times de futebol, passando pelas igrejas e chegando a bandas de Rock, assumem uma identidade diferente da projetada para ela, na verdade sua vontade é ser o melhor para ser aceita. É verdade que quando nos identificamos com outros e percebemos suas melhores potencialidades, reassumimos o compromisso de ajudar o outro a ser melhor. Embora, ser o que realmente somos mostra a capacidade que aqueles que nos criou nos deu de nos tornamos o melhor todos os dias.

                            Criação não é evolução, pois não é um processo de alienação para ser outro. Criação é viver o melhor que posso ser e esse ser não pode ser diferente de mim mesmo.

Pelo primeiro passo


O mundo é peregrinação. Dificilmente alguém não religioso se identificaria com essa metáfora, não é atrativo pra ninguém se desvencilhar da vontade de poder, e decidir caminhar em direção a uma jornada verdadeira pela vida.

Ao se pensar em representação pela peregrinação, deveríamos adentrar primeiro no processo de ser no mundo. Algo como está aqui para algum propósito. Dar um passo em direção a algum lugar é mais importante que  escolher permanecer em uma ideologia particular, subjetiva, que aflora simplesmente a consciência do grande niilismo que nos acomete, que é exatamente a falta de sentido.

O mundo seria bem melhor representado por uma metáfora que fosse dinâmica, permanecer apático em relação as questões primordiais da vida, como a fé, a esperança e o amor é pura histeria coletiva daqueles que preferem viver na angustia de seu próprio sofrimento.

Peregrinação é a dinâmica que a própria vida requer de nós, “ir em direção a”, é o que identifica os passos de uma criança ao se impor no mundo. Há exemplo da causa infantil, o homem como todo não pode alcançar entendimento algum de nenhum fato relacionado à vida a não ser que se proponha a dar um primeiro, um segundo e indefinidos passos em direção ao seu próprio sentido.

Não posso deixar de citar que esse texto é uma compreensão de um sonho vivido por um pobre homem condenado pela sua fé chamado de John Bunyan autor de “O peregrino”. Se identificar com a jornada de sua vida seria o primeiro passo para o homem conhecido como pós-moderno avançar como homem que é no mundo. A relatividade das ações que o nosso cotidiano impôs é daninha para o processo de dar dignidade à pessoa humana

Vivemos sem sentido porque a vida não nos faz sentido. Qual o sentido de um jogador de futebol que perde suas pernas? O primeiro olhar para essa situação diria, nenhum. E isso só acontece porque o tal jogador não é mais que um produto midiático, ou de um processo de coisificação, que ele só tem sentido enquanto um objeto.

            Assumir uma postura em relação à vida e entender que o sentido da vida só pode está além da própria vida é um teste de coragem. Se a vida é um fim em si mesmo, logo somos os seres mais miseráveis do mundo.


Agora, preciso assumir uma postura radical, minha própria postura, tenho que dizer que minha vida não faria sentido sem o ser que designamos a milênios de Deus. Por mais que a sugestão imponha uma religiosidade ou um fanatismo, esclareço que à medida que me liberto do processo de alienação só posso ver sentido para além dessa vida na transcendência do meu próprio ser, orientado ou para outra pessoa ou para o meu Deus que a ambos  amo e sirvo.
Pense! Repense! Dê o primeiro passo!

Olhando para os Pássaros


Aprender a vê a beleza naquilo que é necessário nas coisas é uma lição que o homem poderia apreender á medida que se aproxima delas. Focaremos o olhar naquele que é o mais sublime de todos os homens, e o melhor e mais humilde entre os “deuses”.

Nenhum “deus” criado em qualquer movimento mitológico comprometeu-se a conhecer e vivenciar a existência humana. É fato que os homens nunca reconheceriam como “deus” aquele que se humilha a tal posição, a menos que ele se torne um tirano.

João um dos apóstolos, conceituou o principio de todas as coisas a partir de uma palavra, o "logos".O logos joanino aponta para Deus encarnado na forma de homem. homem de dores, sofrimentos, angústias. É esse homem que ao olhar para nós pobres e infelizes existentes, observa uma das nossas necessidades de forma singular, em um episódio que marcou a vida de um discípulo, Levi, chamado no meio grego de Mateus, ele registrou o seguinte:

Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?

Ao existir no tempo, Cristo ensina muito sobre a necessidade de humanização do homem. E ao olhar para as coisas simples e falar da essência natural da criação, ensina o homem a necessidade de observar passivamente sua vida, para daí então passar a atuar no mundo.

Precisamos de mais contemplação para passar a desejada ação. A ação natural do cosmos e sua organização enfatizam a soberania de Deus, do seu mandato que não é arbitrário, mas capaz de observar os aspectos mais bonitos e simples de sua criação, como no episódio acima.

Observemos uma coisa de cada vez, percebamos a essência de cada coisa, nos retiremos da aceleração do pensamento que nos faz abrir várias abas de um navegador de uma vez, relaxemos, quebremos o circulo vicioso da ansiedade que gera medo que por sua vez gera mais ansiedade e assim sucessivamente. Mudar a rotina e observar a ordem das coisas nos fará refletir sobre o sentido da nossa existência, nos tornando parte de um plano maravilhoso de vida plena de sentido.

Como disse Nietzsche:


"Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: - assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas."

Pense! Repense! Olhe para o que realmente é importante!

Pela Liberdade da mente





Uma clássica frase surge de um dos teólogos mais equilibrados do período estóico e epicurista, Paulo de Tarso, que num momento de inspiração rompeu o horizonte religioso, científico e filosófico dizendo:
"Transformai-vos pela renovação de vossas mentes"

A frase é simples mas não pode ser entendida sem uma observação histórica, e o passeio começa pela ideia de Homero que identifica a "forma" de transformai como aquilo que é aparente, não longe da verdade apoiam-se nesse argumento os estudos de um famoso filósofo conhecido por Aristóteles que distinguia a matéria da forma, onde a forma seria a essência necessária.

Abalizamos a segunda parte da palavra, voltaremos para o prefixo que lhe modifica, o "trans", no grego, a partícula é metha, e seu uso implica numa mudança inconfundível daquilo que lhe sugere, em outras palavras, a sugestão de Paulo é que sejamos modificados naquilo que nos identifica, a "essência".

Como a essência em si não pode ser mudada o que pode acontecer é a semelhança com a natureza, o vir-a-ser o tornar-se. Uma borboleta tornou-se, pois não era, mas tinha potência para ser. Realmente é preciso coragem para ser, torna-se o que é. Essas raizes diferenciaram os indivíduos que permaneceram como potencia dos que  passaram para o ato.

Passaremos a discutir um local onde a transformação deve acontecer, na mente. Essa palavra traz em si a dimensão que evoca a espiritualidade, a dimensão noogênica, onde a maioria das neuroses acontece. É nesse local que o homem precisa ser renovado, reavaliado, refeito, enfim, "transformado".

Fecho a postagem com duas reflexões. A primeira é orientada para o propósito do blog, liberdade da mente. A grande missão é vencer os empecilhos que procrastinam a interação com o nosso eu-religioso. A segunda é a abordagem que Bultmann deu a esse assunto que melhor sintetiza tudo o que queremos viver:

"Trata-se, não de uma nova aprendizagem teorética, mas da renovação da vontade"

Pense!Repense!
 
 

Boas Vindas!



"Neste dia perfeito, em que tudo amadurece senão só a videira doura, caiu-me na vida um raio de sol: olhei para trás, olhei para frente, jamais vi tantas e tão boas coisas de uma só vez."

Começo essas postagens com  um dos mais sublimes livros já escritos pelo homem, refiro-me a Ecce Homo de Nietzsche.O ritmo não será frenético, o objetivo é observar uma coisa de cada vez. Refletir sobre o propósito de cada microcosmo que nos revela a vida. O olhar é sempre demasiadamente humano, contudo, não perderemos de vista aquilo que nos torna verdadeiramente homens, a causa primeira que move todas as coisas, pelo seu logos criador.

Me atrevo a usar as palavras de Viktor Frankl no seu livro " o Deus inconciente" quando diz que:

 Na verdade, a pessoa contenta-se, às vezes, em renegar o nome de Deus; por arrogância fala então "do divino" ou "da divindade", e mesmo a ela gostaria de dar um nome particular ou escondê-la a qualquer preço atrás de expressões vagas e nebulosas de conotação panteísta. Pois assim como se necessita de um pouco de coragem para declarar-se partidário daquilo que se reconheceu, é preciso ter um pouco de humildade para designá-lo como aquela palavra que as pessoas vem usando a milênios: simples palavra "Deus".

É a partir dessa designação que viajaremos pelas ciências do espírito sempre norteados pela verdadeira humanização. Seja bem-vindo ao nosso barco


Rafael Sá